segunda-feira, 20 de setembro de 2010
Fragmentos
Chuvisco revela o cheiro da terra.
O sol se esconde cor de rosa.
E vem a lua. Corta o céu com sorriso crescente.
Rastro de estrela aponta o caminho.
Vênus que brilha em minha fachada.
De tão boa, a vida chega a doer, a enjoar,
a cortar, a roçar, a ranger.
Vontade de dar gritos, de ficar no chão, de sair,
Para fora de todas as casas, de todas as lógicas, de todas as sacadas,
e ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos.
Entre tombos e ausência de amanhãs.
Tudo isto devia ser qualquer outra coisa
parecida com o que penso, com o que sinto,
que eu nem sei o que é.
Fui ao encontro de mim.
Descubro.
Simplesmente eu sou eu.
E você é você.
É vasto, vai durar.
Neste texto, minhas palavras e fragmentos de poemas de mestres das palavras:
Clarice Lispector e Álvaro de Campos.
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
Estupidez
Sou eu quem me governa.
Atravesso o asfalto liso.
Sem faixas para me guiar.
Longe de sinais luminosos que fream passos.
Egoísmo poderoso que arrefece automóveis, atropela os fracos.
A buzina é instrumento de tortura.
Nas frações de segundo do verde, propago o barulho vermelho. Cores da minha aquarela intolerante.
O carro sobre a calçada sai à reboque. Vou vê-lo de novo, eu sei.
Pago o habeas corpus. Estaciono de novo.
Rodas paralíticas, recém-nascidas, que enfrentem pistas aceleradas.
O toque estridente do telefone invade a cena do teatro.
Vida que não se desliga por outros personagens, que não eu.
E a garrafinha plástica, camuflada na entrada, largo no chão.
Estímulo à faxina do pós-espetáculo.
A areia da praia é túmulo dos canudinhos que lambi.
Daqui a cem anos, relíquias nas ondas negras do mar.
Feliz de quem achar.
Meus restos se misturam no gordo saco de lixo.
O que descartei, decomposto pelo tempo, jamais pela reciclagem.
Moscas varejeiras, insetos nocivos, garantem a eternidade.
Sou altruísta.
Não me interessa para onde vai o que expeli.
No fundo, torço para que esteja navegando nas águas da Lagoa.
Vai dejeto, faça os peixes boiarem podres.
Permeie a cidade com seu perfume.
Meus apertos líquidos se aliviam nos canteiros.
À luz do dia, brilham no tronco da amendoeira centenária do Leblon.
Me fascinam bueiros entupidos no temporal.
Guimbas dançam conforme a música alta que incomoda os vizinhos. Redemoinhos vigorosos da estupidez.
Retratos fiéis de mim.
De um Carnaval que não escoa.
Sou eu quem me governa.
Sou eu, um cidadão carioca.
Quero meu crachá, nêm.
domingo, 5 de setembro de 2010
Sábio Quintana
A equipe de reportagem seguiu para a Fiocruz.
Era a inauguração do borboletário: uma casa de uns quarenta metros quadrados, revestida de tela, com flores e plantas pra todo lado. Curiosos, adentramos o paraíso das borboletas com cuidado para não pisar em nenhuma.
O desafio maior foi fazer imagens de dezenas de insetos inquietos.
A cada virada de câmera, eles voavam em bando.
Sentei num banco de canto para acompanhar o trabalho hercúleo do repórter cinematográfico.
_Elas são muito arredias._ disse o especialista da Fundação.
De repente, um belo exemplar pousou, sorrateiramente, no dorso da minha mão esquerda. Era da espécie "Júlia" com asas alaranjadas e tamanho médio. Fiquei imóvel.
Já a borboleta estava a vontade.
Logo desenrolou sua lingüinha negra e pôs-se a sugar algo.
Para surpresa geral, a nova amiga adotou minha mão como puleiro.
Ali refastelou-se por uns vinte minutos.
Gravei, atendi o celular, caminhei e ela não ameaçou decolar.
O relaxamento era tal que "Julia" fez até pipi.
Duas gotículas quase imperceptíveis. Soube que é um elixir afrodisíaco...
_Um dos fluidos mais límpidos da natureza. Na China, é vendido a peso de ouro.
Na dúvida, colhi o material inodoro com o polegar, espalhei na nuca e agradeci o presente.
O especialista seguia impressionado com o atrevimento:
_Há tempos não via isso. Ela não quer mais sair daí.
Enquanto observava o descanso da borboleta em mim, lembrei das palavras do poeta:
"O segredo é não correr atrás das borboletas... é cuidar do jardim para que elas venham até você. No final das contas, você vai achar, não quem você estava procurando, mas quem estava procurando por você..!"
Por fim, a borboleta virou-se lentamente de frente, como se me encarasse. Abriu as asas e partiu.
Em seu repouso, ela não sugou.
Depositou foi inspiração em mim.
Viva Quintana.
Que venham as borboletas...
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
Primitiva
Afeto em seu primórdio inevitável.
De novo principiante.
Sente arder.
E disfarça privativo ardor.
De repente a primazia:
Esquece princípios.
Salta a privança.
Foge da prisão.
Irradia o instante em raro prisma.
Prima imagem indigesta.
Da tua festa primaz de mim.
Paixão primitiva.
Primor de sentimento.
Privilégio de quem é. E sou.
Primogênito dos homens.
Alvo principal.
Me faz primária.
Me faz princesa.
Brindemos à prioridade.
Sem privações. Ou priscos.
Só primaveras...
sexta-feira, 20 de agosto de 2010
Ousadia
Na sacada, à espera de ousadia.
A luz da lua morna percorre o castelo.
Ilumina a retina de paixão celeste.
O perfume da sorte florida irradia eletricidade, permeia o ar de batimentos.
Nada marcado. Intuição fresca é quem agita o peito.
Arrepios umidecidos pelo sereno da esperança.
Sopra o vento da certeza.
A princesa se apronta para encontrar o desconhecido:
Especiarias amaciam a pele, escova transpassa nós, madeixas entrelaçam em fita de cetim, beliscões coram a tez.
A matilha late no pátio de tochas.
Tranças a postos para arremesso na varanda.
Uma corda. Uma chave. Silêncio.
_Quem virá coração? Por que me iludes?
_Vou decepá-lo à espada de mim.
Luta inglória com rolha de vinho raro, da adega profunda dos anseios. Vence o enrosco insistente com carisma nato.
Derrama em cristal suas aflições. Se lambuza de verdade.
Coragem mistério! Felicidade genuína te espera.
Madrugada a dentro.
De repente, o grito seco.
Palavras vibrantes ecoam no vilarejo.
O belo jovem vence guardas da Independência.
Escala a fachada, invade o sorriso surpreso.
Toma nos braços sua prenda.
Um rompante.
Derretimento qual vela acesa.
Amor insofismável invade o aposento.
Apaga a altivez em breu de entrega.
Beijos infinitos, flutuantes.
Corpos se moldam mudos como escultura divina. Eterna.
Gemidos reencarnados ocultam alicerces do amanhã.
Como será o amanhã? O despertar do sonho?
Acorda afoita. Mais certa que antes: Ele virá em breve.
Montado em tordilho sem sela.
Entregará em bandeja de prata sua fé.
À tempo, em tempo.
Segue a princesa feliz na sacada.
À espera de destino oculto.
De ousadia.
Dorme moça.
A luz da lua morna percorre o castelo.
Ilumina a retina de paixão celeste.
O perfume da sorte florida irradia eletricidade, permeia o ar de batimentos.
Nada marcado. Intuição fresca é quem agita o peito.
Arrepios umidecidos pelo sereno da esperança.
Sopra o vento da certeza.
A princesa se apronta para encontrar o desconhecido:
Especiarias amaciam a pele, escova transpassa nós, madeixas entrelaçam em fita de cetim, beliscões coram a tez.
A matilha late no pátio de tochas.
Tranças a postos para arremesso na varanda.
Uma corda. Uma chave. Silêncio.
_Quem virá coração? Por que me iludes?
_Vou decepá-lo à espada de mim.
Luta inglória com rolha de vinho raro, da adega profunda dos anseios. Vence o enrosco insistente com carisma nato.
Derrama em cristal suas aflições. Se lambuza de verdade.
Coragem mistério! Felicidade genuína te espera.
Madrugada a dentro.
De repente, o grito seco.
Palavras vibrantes ecoam no vilarejo.
O belo jovem vence guardas da Independência.
Escala a fachada, invade o sorriso surpreso.
Toma nos braços sua prenda.
Um rompante.
Derretimento qual vela acesa.
Amor insofismável invade o aposento.
Apaga a altivez em breu de entrega.
Beijos infinitos, flutuantes.
Corpos se moldam mudos como escultura divina. Eterna.
Gemidos reencarnados ocultam alicerces do amanhã.
Como será o amanhã? O despertar do sonho?
Acorda afoita. Mais certa que antes: Ele virá em breve.
Montado em tordilho sem sela.
Entregará em bandeja de prata sua fé.
À tempo, em tempo.
Segue a princesa feliz na sacada.
À espera de destino oculto.
De ousadia.
Dorme moça.
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
Só
Feliz de mim.
Feliz de mim só.
Somente só.
Vontade de mim somente.
Só de mim, só feliz.
Vontade só.
Feliz de mim.
Feliz de mim. Só.
domingo, 15 de agosto de 2010
Adeus Mariana
O caudilho não queria falar. Rei da retórica, Leonel Brizola estava reticente. Lacônico com a imprensa há semanas.
A raposa política era o lanterna das pesquisas naquelas eleições em 2000. A tarefa da estagiária era entrevistá-lo a qualquer custo.
A reportagem só iria ao ar com a declaração de todos os candidatos à prefeitura.
Tentei por telefone em mais de quinze ligações.
Na última, um brinde da sorte:
_Alô, quem fala? _Boa tarde candidato.
_A tarde é mesmo boa, mas não vou falar com jornalistas._disse ele.
_Aqui é Mariana da Rádio CBN.
_Mariana? Sabe que estava pensando nesse nome agora?
Surgiu um Brizola nostálgico.
Desatou a cantar uma canção com meu nome. Tinha até alguma afinação.
A letra era uma despedida. Sobre um homem que decidira largar uma mulher durona. Minha xará dos pampas.
Depois de soltar a voz, revelou que se tratava de uma composição antiga que marcara sua adolescência.
_Cantava esta música para minha primeira namorada em serenatas. Mariana era uma gaúcha brejeira. Quase casei-me com ela. Nunca mais encontrei um disco do grande intérprete. Uma pena.
Brizola se referia à Pedro Raimundo. Típico cantor sulista. De voz melodiosa e pouco conhecido na Região Sudeste.
Resumo da serenata telefônica: O candidato cantou, mas, não falou. Encerramos a ligação em seguida. Meu chefe não gostou. E eu, não me dei por vencida.
No mesmo dia, invadi a Central de arquivos do Sistema Globo de Rádio, uma das mais completas do país.
Os técnicos encontraram a machadinha que quebraria o silêncio de Brizola: Raras gravações do tal cantor gaúcho em vinil, incluindo o hit “ Adeus Mariana”. Gravei a fita-cassete com uma música. Na época, gravadores de CD ainda não eram acessíveis. Deixei no prédio de Brizola, em Copacabana, com um cartão: Para o senhor recordar. Envio apenas uma das dezenas de músicas que encontrei na voz de seu cantor preferido. Se quiser ouvir as outras, ligue para a redação."
Minutos depois, o telefonema emocionado:
_ Mariana, o presente me fez remoçar. Sinto-me revigorado para continuar minha campanha. Agora vai.
Não foi.
Brizola me deu entrevista naquele dia. Nunca mais se negou a falar comigo. Me atendia prontamente, sempre cantando. Depois das eleições, ganhou outra fita-cassete. Dessa vez, com os dois lados repletos de canções.
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